González Rey (2015) nos ensina que a
subjetividade social é uma produção imaginária que caracteriza a forma como as
experiências sociais recebem sentidos subjetivos dentro de redes também
subjetivas invisíveis que surgem no movimento entrelaçado de sentimentos. São
processos simbólicos que formam diferentes configurações sociais em diferentes
instâncias e cenários.
Na constante multiplicação de
incertezas sociais pelas quais trafegamos nos dias atuais e vindouros, a
subjetividade dos indivíduos em contexto social deve ser pensada dentro do
simbolismo que marca suas decisões e que podem se deparar em contramão às nossas opções e as dos nossos
semelhantes dentro dos espectros comunitários complexos.
Somos as cicatrizes de nossas
interpretações e elas se somam em nossas discrepâncias intersubjetivas em
relação às formas com as quais entendemos o mundo e na forma com que as
desigualdades de pensamentos nos confrontam. O confronto entre olhares difusos
não é uma tarefa simples de compreensão para quem se acha impelido a aceitar a
força do contrário social. Mas, também pode ser de significativo ensinamento no
exercício da oposição de ideias dentre os contextos de indivíduos e dos grupos de
pertencimento. Pois, colocar-se no lugar do outro requer abstração das próprias
convicções e elaborar um movimento de entrar no cenário do qual não nos oferece
a melhor configuração das cores expostas aos nossos olhos.
Maturana e Varela (2001) inferem
que a reflexão é um processo de conhecer como conhecemos, portanto, um ato de
voltar a nós mesmos, a única oportunidade que temos de descobrir nossas
cegueiras e reconhecer que as certezas e os conhecimentos dos outros são,
respectivamente, tão aflitivos e tão tênues quanto os nossos. E, nesse aspecto,
podemos dialogar nossas posições e identidades com as dos outros, ao
negociarmos olhares divergentes dentro do cenário de diferentes posições de saberes
sobre um mesmo fenômeno e as relações de poderes que tal objeto de conhecimento suscita-nos.
Esse processo reflexivo nos leva ao
entendimento de que as subjetividades humanas, seus contextos sociais e
posições dentro do quadro cultural, estão imbricadas por representações que
transformam em ordinárias as comunicações de conceitos e consensos sociais e que
transitam em nossas mentes grupais por meio das quais angariamos nosso modo de
comportamento e de ações sobre um dado objeto. Assim, o interno e o externo se
misturam e formam o nosso caldeirão de signos que nos ditam o lugar de onde
falamos em cada momento histórico.
Alteridade e ego se desafiam no
contraste social e na identidade do indivíduo, e, deste, em sociedade sobre o outro implicado.
A existência do eu e do outro
são os corpos simbólicos das ativações de saberes e de poderes que se cruzam em
campos representacionais que alimentam as posições intragrupos e entregrupos
sociais. "O homem existe – existere –
no tempo. Está dentro. Está fora. Herda. Incorpora. Modifica. Porque não está
preso a um tempo permanente que o esmaga, emerge dele. Banha-se nele.
Temporaliza-se” (FREIRE, 2011). O subjetivo e o objetivo se
materializam dentro das rotinas temporais na simultaneidade dos consensos e
dissensos dos indivíduos membros de um grupo social.
Nos tempos atuais é preciso que
tenhamos a proatividade investigadora na busca por, cada vez mais, entendermos
o lugar dos outros, dos grupos e dos indivíduos dentro do vasto arquipélago
social que se transformou nossa malha comunitária brasileira. Desvendando suas
perspectivas de mundo e de sociedade, seus olhares e saberes que se imbricam e
se distanciam em meio ao turbilhão de informações a que temos acesso
diariamente. Esse movimento investigativo é necessário e preponderante para
discutirmos e problematizarmos alternâncias e limites para o discurso e o
discurso de poder/saber de indivíduos e grupos nos espaçostempos nos
quais estamos submersos.
Dijk (2015), nos diz que "é evidente que o pertencimento a um grupo ou instituição por parte dos falantes e a desigualdade social tomada em termos genéricos introduzem diferenças a respeito do controle do diálogo em andamento. Essas diferenças aparecem, por exemplo, na conversa entre homens e mulheres, adultos e crianças, brancos e negros, ricos e pobres, ou entre os que frequentaram a escola durante mais ou menos tempo. Parte-se do pressuposto de que um controle desse tipo, exercido pelo falante com mais poder, pode entender-se à alocação ou apropriação do turno, à escolha do ato de fala, à seleção e mudança de tópico e ao estilo".
Dijk (2015), nos diz que "é evidente que o pertencimento a um grupo ou instituição por parte dos falantes e a desigualdade social tomada em termos genéricos introduzem diferenças a respeito do controle do diálogo em andamento. Essas diferenças aparecem, por exemplo, na conversa entre homens e mulheres, adultos e crianças, brancos e negros, ricos e pobres, ou entre os que frequentaram a escola durante mais ou menos tempo. Parte-se do pressuposto de que um controle desse tipo, exercido pelo falante com mais poder, pode entender-se à alocação ou apropriação do turno, à escolha do ato de fala, à seleção e mudança de tópico e ao estilo".
Esses movimentos, subjetivos e sociais - de indivíduos e seus grupos -, em meio ao campo representacional acerca de um objeto ou fenômeno pelos quais se revelam conceitos e comportamentos, podem nos valer a compreensão de como as dinâmicas e escolhas em sociedade são afirmadas ou negadas no espectro de nossa conjuntura brasileira atual. Entre o alter e o ego, o limite de nossas escolhas estão afeitas a afetos, consensos e dissensos sociais - por meio do ordinário conhecimento do cotidiano -, e subjetivos - a partir do desacordo que distingue o pensar dentro de um grupo humano, mas que se revela sensivelmente importante nos embates de poderes/saberes no contexto da sociedade contemporânea. Afinal, os outros e eu, estamos todos entrelaçados pelos ditames de nossas posições, de nossos poderes/saberes, de nossas decisões e comportamentos, de nossas representações.
Referências:
DIJK, Teun A. van. Discurso e poder. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2015.
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. 14. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011
Referências:
DIJK, Teun A. van. Discurso e poder. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2015.
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. 14. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011
GONZÁLEZ REY, F. L. A new path for the discussion of Social
Representations: advancing the topic of subjectivity from a cultural historical
standpoint. Theory & Psychology - 2015.
MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão
humana. São Paulo: Palas Athena, 2001.